Ano de eleição presidencial no Brasil significa uma temporada de incertezas para o mercado financeiro e para os investidores. Somado a isso, em 2018 verificamos um ano de turbulências também no noticiário internacional, com muitas novidades sendo apresentadas pelo inconstante presidente norte-americano Donald Trump. Mas afinal, o quanto as Eleições 2018 no Brasil poderão influenciar a economia e a retomada dos indicadores nacionais?

Diversas análises apontam para um cenário diferente em 2018 do que foi registrado em 2017 e nos anos anteriores – ao menos, os anos sem eleições. Essa diferença tem tudo a ver com a expectativa variável dos investidores de dentro e de fora do país – lembrando que eles agem conforme as projeções dos cenários futuros. Como as Eleições 2018 prometem ser as mais disputadas e com candidaturas mais variadas desde a redemocratização do país, está montado o cenário de grandes flutuações e de incertezas sobre o qual falaremos a seguir.

A expectativa para o dólar no período pré e pós-Eleições 2018

No primeiro semestre do ano, as Eleições 2018 já se apresentavam como as disputas com mais candidatos com chances para o cargo máximo da nação desde a disputa de 1989. Esse cenário de grandes expectativas e especulações favorece que, antes de outubro, indicadores como o câmbio e a bolsa de valores registrem altos e baixos com certa frequência – variações motivadas pela divulgação de pesquisas eleitorais e pelo cenário internacional, especialmente pelo noticiário envolvendo os Estados Unidos.

A cotação do dólar no final do ano, contudo, dependerá do resultado final das Eleições 2018. Segundo uma reportagem da revista Exame, “dependendo da evolução do quadro político, analistas veem espaço tanto para o dólar cair a menos de R$ 3 e a bolsa disparar até 100.000 pontos quanto para o câmbio voltar ao patamar de R$ 4 e o Ibovespa despencar a 50.000”.

Faltando pouco mais de cinco meses para as Eleições 2018, em maio o dólar estava na casa dos R$ 3,60 e a bolsa no patamar dos 84.000 pontos. Ou seja, houve um equilíbrio entre os dois extremos de projeção. Não seria uma total surpresa, assim, se o Brasil fechasse o ano com o dólar entre R$ 3,50 e R$ 4 e com o Ibovespa perto de 100.000 pontos.

Para o economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics, Neil Shearing, citado pela Exame, as Eleições 2018 representam o principal risco para o mercado no ano, mas não necessariamente a disputa eleitoral representa um risco para a economia nacional. Ele e todos os especialistas ouvidos pela revista apontam para um crescimento maior do PIB, mas vamos falar disso mais abaixo.

Conforme uma matéria do portal G1, após a preocupação envolvendo a prisão de Lula, o próximo foco da preocupação do mercado seria o vigor – ou a falta dele – das candidaturas de centro-direita nas Eleições 2018. “Mais fundamentalmente, quando a poeira baixar, investidores provavelmente vão se concentrar mais no fato de que os candidatos pró-mercado ainda patinam nas pesquisas”, comentou na reportagem Edward Glossop, economista da América Latina da Capital Economics.

Na opinião do economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa, também citado pelo G1, o cenário-base dos investidores até o momento é de que vença as Eleições 2018 para Presidência um candidato de centro-direita. Se isso se confirmar, ele projeta um cenário com o dólar a R$ 3,36 no final do ano. “Se esse cenário não se concretizar e um ‘outsider’ vencer, não vejo ataque contra o câmbio, mas certamente o patamar de equilíbrio estará mais para R$ 3,50”, comentou Rosa.

Como explica com propriedade a reportagem do jornal O Globo, o cenário é tão complexo e difícil de prever em relação à cotação do dólar que, apesar de o primeiro Boletim Focus de maio de 2018 apontar para um dólar em R$ 3,37 no final do ano, alguns especialistas acreditam que a barreira dos R$ 4 seja quebrada durante as Eleições 2018. “A incerteza é tanta que se a moeda tiver o movimento contrário e terminar abaixo de R$ 3 não seria surpresa. O único consenso é de turbulência pela frente”, escreveu Gabriela Valente no texto de O Globo.

Entre as certezas dos especialistas está a de que a cotação flutuante e até certo ponto “imprevisível” do dólar não deve estar relacionada com os fundamentos da economia, que estão melhores em 2018 que há poucos anos, mas refletem sim o “estresse do mercado financeiro com o cenário eleitoral”.

Na avaliação do economista da ICAP, Italo Abucater, as Eleições 2018 devem repetir o cenário da reeleição de Dilma Rousseff, ou seja, câmbio que responde aos rumos indicados pelas pesquisas eleitorais. “O cassino do mercado financeiro estará a todo vapor”, resumiu.

Vale citar também o comentário do economista-chefe da corretora Gradual, André Perfeito, feito na mesma matéria de O Globo: “É eleição. Só isso já teria um aumento natural do câmbio, mas o cenário político conturbado deve ter um peso maior”. No início do ano, Perfeito já projetava o dólar na casa dos R$ 3,60 – cotação confirmada em maio de 2018.

“Ainda há fluxo para cá (Brasil), mas não me surpreenderia se fosse para R$ 4 ou mais, porque os juros nos Estados Unidos devem subir mais. Como eu acho que a variável de ajuste serão os juros de longo prazo, o diferencial deve continuar favorável para cá (permitindo a entrada de dólares no país)”, projetou Perfeito.

Como a disputa pelas Eleições 2018 ainda não começou para valer, o que explicaria o aumento do dólar tão expressivo ainda no primeiro semestre? Encontramos uma das respostas no comentário de Tania Escobedo, estrategista de câmbio da RBC Capital Markets em Nova Iorque, em publicação do site InfoMoney: “Sem as reformas (como a da Previdência), a materialização de medidas protecionistas nos EUA ou um aumento da aversão a risco global pode pegar o Brasil em uma situação vulnerável”.

Os principais aumentos no câmbio entre abril e maio de 2018 no Brasil tiveram mais a ver com o cenário global – inclusive disputas entre países e geopolítica – e com a expectativa de aumento dos juros nos EUA do que propriamente com o cenário das Eleições 2018. Ou seja, muito mais volatilidade será vista até a disputa eleitoral propriamente dita. Mas a tendência, sem dúvida, está mais para o aumento do que para a queda do dólar.

Não foram as Eleições 2018, até o momento, mas outro fator interno que influenciou o aumento do dólar no Brasil, segundo matéria da Folha de S.Paulo: a desconfiança do investidor que não quer sair do mercado acionário brasileiro ao mesmo tempo em que não quer correr o risco cambial. Assim, “o investidor estrangeiro não está apenas investindo na Bovespa, mas, ao mesmo tempo, comprando dólar ou contrato futuro de dólar para proteger o investimento em ações do risco de desvalorização do câmbio”.

Também é importante lembrar que o dólar teve uma queda importante em 2017, desvalorizando 10% até o final daquele ano. Esse foi o pior desempenho da moeda estrangeira no Brasil em 14 anos, registrou a matéria da Thomson Reuters. Assim, há bastante espaço para recuperação da moeda norte-americana ainda, além de todos os fatores citados.

Eleições 2018: o que esperar em relação ao desempenho do PIB, Selic e outros indicadores

O ano de 2017 foi o primeiro ano pós-recessão econômica, como bem lembrou o economista do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas), Marcel Grillo Balassiano, em texto publicado no site FGV Jr., e as perspectivas econômicas são ainda melhores para 2018, apesar do cenário eleitoral conturbado.

Entre os indicadores favoráveis em 2017, destaque para o “crescimento real do PIB depois de dois anos de quedas consecutivas”, inflação abaixo de 3% – ou seja, abaixo do centro da meta do Banco Central de 4,5% –, taxa básica de juros (a Selic) na mínima histórica de 7% ao ano e recuo da taxa de desemprego. Apesar desses fatos positivos, 2017 ainda fechou com um nível de desemprego alto e com um problema fiscal grave – déficit primário superior aos R$ 100 bilhões – aparentemente ainda longe de ser resolvido.

As expectativas do Ibre/FGV para 2018, segundo Balassiano, são de um PIB com crescimento de 2,8%, inflação de 3,95% no acumulado do ano e taxa Selic em 6,75% – perspectiva essa superada pela redução da taxa ao nível de 6,5% já na reunião do Copom de 21 de março.

“O crescimento do PIB em 2018 deve ser mais disseminado entre os setores, com um crescimento tanto da indústria quanto do setor de serviços, e não dependente da agropecuária, como foi em 2017. O consumo das famílias deve continuar a ser um dos principais vetores desse crescimento, e os investimentos, depois de anos de queda, devem apresentar uma volta para um crescimento positivo, próximo de 4%”, escreveu Balassiano.

Em uma palestra sobre as perspectivas do mercado para 2018 na sede da ABAC (Associação Brasileira de Administradores de Consórcio) no começo de fevereiro, e divulgada na matéria do site da entidade, o economista e ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, projetou um cenário mais favorável para a economia do país em 2018 que em 2017: “No ano passado, o PIB cresceu na faixa de 1% e a previsão é de alta de 3% para 2018. O desemprego está caindo e deve continuar assim até o fim do ano. Há expectativas de que feche abaixo de 10,5% no final de 2018”.

Uma reportagem do portal G1 trouxe a opinião de três economistas sobre o desempenho do PIB, do dólar, da inflação e do nível de desemprego até o final de 2018. Alessandra Ribeiro, economista-chefe da Tendências Consultoria; Felipe Salles, economista do Itaú Unibanco; e Eduardo Velho, economista-chefe e diretor do Banco Banestes, projetaram crescimento do PIB em 2018 entre 2,8% e 3,3%.

Na avaliação de Eduardo Velho, o consumo das famílias, os investimentos e a queda dos juros são fatores positivos para 2018, além do bom desempenho da agricultura. “O país está realmente com um sinal de alta generalizada. A alta do PIB, de 3,3% no ano, é um crescimento bom, sem pressão inflacionária”, comentou na matéria do G1.

Em relação à inflação até o final do ano, os três economistas projetaram uma taxa entre 3,8% e 4,32%, ainda abaixo do centro da meta do Banco Central – ou seja, inflação sob controle. A taxa de desemprego sim que continuaria alta, entre 11% e 12,4%, segundo os economistas.

Vale também citar as projeções atualizadas do mercado plasmadas no Boletim Focus do início de maio de 2018. Pouco a pouco o mercado foi ajustando a projeção de crescimento do PIB, até que ela chegou a 2,7% para o ano nesse Boletim Focus. Também caiu, progressivamente, a projeção de crescimento da produção industrial, com aumento de 3,81% projetado para o ano.

Outros indicadores importantes projetados para 2018 pelo mercado: inflação em 3,49%; Selic a 6,25%; balança comercial positiva em US$ 55 bilhões e investimentos estrangeiros diretos no país somando US$ 75 bilhões.

Para 2019, as projeções do mercado apontam inflação em 4,03%; Selic a 8%; crescimento do PIB de 3%; produção industrial crescendo 3,5%; balança comercial positiva em US$ 46 bilhões e investimentos estrangeiros diretos no país de US$ 80 bilhões. Esperamos que as Eleições 2018 não atrapalhem essas projeções positivas.

 

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