O setor elétrico é um dos mais promissores para investidores no Brasil na atualidade e no futuro de curto, médio e longo prazo. Com uma população de cerca de 208,8 milhões de habitantes em março de 2018, segundo o IBGE, e com uma geração média de 65.585 MW em 2017, segundo o Boletim Técnico – Carga e Mercado – Síntese 2017 publicado pela EPE (Empresa de Pesquisa Energética) – o que representou um crescimento na geração de 1,5% no ano em comparação com 2016 –, o Brasil precisa de um setor elétrico dinâmico e em expansão nos próximos anos e décadas para dar conta do crescimento do país.

Especialmente o setor industrial, que consumiu 50% da energia elétrica demandada no Brasil em 2017 segundo a EPE, precisa de investimentos no setor elétrico para que exista segurança para novos investimentos e modernização das infraestruturas atuais. Para quem está investindo nessa área ou pensa em fazer isso no futuro, é importante conhecer o que as consultorias, especialistas e agências de risco estão prevendo como os principais desafios para o setor nos próximos anos. Confira!

Os principais desafios para o setor elétrico no Brasil segundo a Aneel

A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) não atua apenas para regular e fiscalizar o setor, mas também promove, de tempos em tempos, importantes discussões e debates sobre os desafios do setor elétrico no Brasil. Em outubro de 2017, a agência promoveu um desses eventos, o seminário “Desafios da Geração de Energia Elétrica no Brasil”, no auditório da CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil) em Brasília.

O evento reuniu cerca de 200 participantes em três painéis. Na abertura, o diretor-geral da Aneel, Romeu Rufino, falou sobre o desafio de fazer a gestão dos contratos de concessão para que as entregas dos serviços de geração e de transmissão ocorram nos prazos estabelecidos. O evento anterior promovido pela agência, focado nos projetos de transmissão, motivou a Aneel a rever parte das suas regras.

“Identificamos a necessidade de aperfeiçoamentos no processo, o que resultou em prazos mais realistas para as obras, maior clareza para a matriz de risco e mais interação com os agentes na gestão dos contratos para antecipar possíveis problemas, sempre respeitando o papel de cada envolvido”, comentou Rufino no evento, segundo uma notícia publicada no próprio site da Aneel.

No mesmo evento, o diretor-geral da Aneel afirmou que a agência tem atuado de forma proativa, antecipando problemas e maximizando as chances dos contratos serem cumpridos. Durante o seminário, o secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Paulo Pedrosa, defendeu que as novas formas de investimento no setor devem realizar os incentivos e os riscos com novos custos de financiamento para recuperar uma lógica econômica mais eficiente para o setor.

“Com o comportamento do PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) sem subsídios implícitos, o custo da energia vai subir e nós teremos que acomodar esse custo por meio da eficiência, da competição, do mercado, da participação do consumidor, de maneira que a energia chegue ao varejo com um preço que a sociedade possa pagar”, comentou Pedrosa no evento, segundo a notícia no portal da Aneel.

O evento da Aneel versou sobre os desafios para o setor elétrico no quesito planejamento das operações de geração, licenciamentos socioambientais e a visão dos empreendedores sobre esses desafios. O conteúdo dos três painéis está disponível em PDF neste link do site da Aneel.

O seminário da agência reguladora do setor no Brasil tratou de alguns dos desafios do setor elétrico no presente e no futuro. Mas o que as consultorias e as agências de risco apontam sobre esse mesmo assunto?

O que as principais agências de risco projetam para o setor elétrico em 2018

Primeiro, vamos falar das agências de risco e separar a perspectiva que têm para o setor e as notas que elas atribuem para as empresas do setor elétrico. Porque é importante não misturar as estações. Essencialmente, o mercado olha para três grandes agências de risco: Fitch, Standard & Poor’s e Moody’s. Elas olham para os riscos de investimento em países, Estados e empresas.

No final de fevereiro de 2018, a agência Fitch rebaixou os ratings de Longo Prazo em Moeda Estrangeira de algumas empresas e subsidiárias do setor elétrico nacional. Isso aconteceu na esteira do rebaixamento da nota do Brasil, que saiu de “BB” para “BB-” – e o teto passou de “BB+” para “BB”.

É importante observar, nesse e em outros exemplos das agências de risco, que normalmente as notas das companhias do setor elétrico – e de qualquer outro setor – caem quando a nota do país também é rebaixada.

Assim, segundo uma notícia do CanalEnergia, os ratings de Eletrobras, Furnas, Taesa, Engie Brasil e das subsidiárias da Energisa na Paraíba, em Sergipe e em Minas Gerais foram rebaixadas. Apesar disso, a perspectiva “dos ratings e das empresas envolvidas com seus IDRs (Issuer Default Rating, ou Rating de Probabilidade de Inadimplência do Emissor) é estável”.

O que afetou a avaliação das empresas pela agência Fitch foi, na verdade, a situação mais difícil vivida pelo Brasil em 2018 – e não, propriamente, um cenário mais difícil para as companhias do setor elétrico. De acordo com a Fitch, o rebaixamento do rating do país justifica-se pela “continuidade de grandes déficits fiscais, a elevada e crescente carga da dívida pública e a impossibilidade momentânea de aprovar reformas que melhorariam o desempenho estrutural das finanças públicas” – como é o caso da postergação da votação da Reforma da Previdência.

A agência Standard & Poor’s (S&P) não divulgou um relatório específico sobre o setor elétrico, mas em janeiro de 2018 a agência rebaixou o Brasil para três níveis abaixo do grau de investimento com perspectiva estável segundo a notícia da Agência Brasil. Essa perspectiva fará com que a agência S&P aguarde seis meses antes de fazer uma nova avaliação da nota do Brasil.

A justificativa da agência para essa redução da nota é, novamente, a demora do Brasil para implementar as reformas que reduzam os riscos fiscais do país, principalmente a da Previdência. “Apesar de vários avanços da administração (Michel) Temer, o Brasil fez progresso mais lento que o esperado em implementar uma legislação significativa para corrigir a derrapagem fiscal estrutural e o aumento dos níveis de endividamento”, afirmou a agência S&P no seu relatório.

A exemplo do que ocorreu com o rebaixamento da agência Fitch, o feito pela Standard & Poor’s também afetou algumas empresas do setor elétrico. Segundo uma reportagem do Portal G1, a Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia, a EDP Espírito Santo Distribuição de Energia S.A., a Energisa Paraíba Distribuidora de Energia S.A., a Energisa S.A., a Energisa Sergipe Distribuidora de Energia S.A. e a Transmissora Aliança de Energia Elétrica S.A. tiveram as suas notas rebaixadas para o mesmo nível do Brasil (BB-). Além dessas alterações, a agência S&P baixou em um nível a nota da Rio Paranapanema Energia S.A., que ficou com BB estável – ou seja, acima da nota do Brasil.

Apesar de o rebaixamento da nota do país ter sido feito pelas duas agências, quando observando apenas a perspectiva para o desempenho do setor elétrico no Brasil em 2018, a agência Fitch considerou o quadro estável, mesma avaliação da agência Moody’s. Segundo a notícia da corretora Bradesco, a agência Fitch manteve a perspectiva estável para o setor elétrico brasileiro em 2018 “baseada na continuidade da recuperação do consumo de energia no ano, com crescimento previsto de 2,5%”.

Em relatório, a agência Fitch afirma que “a alta no consumo deve beneficiar a geração operacional de caixa das geradoras e distribuidoras, enquanto as transmissoras poderão permanecer reportando as maiores margens de EBITDA (sigla em inglês para lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização)”.

Apesar desse cenário positivo, a agência alerta que “os baixos níveis dos reservatórios das hidrelétricas podem trazer volatilidade aos preços no mercado de curto prazo”. O impacto financeiro disso vai variar de empresa para empresa do setor elétrico, mas a perspectiva é que os ratings das companhias mantenham-se estáveis.

O relatório da Fitch apontou, ainda, que a alavancagem das empresas avaliadas, medida pela relação dívida líquida por EBITDA, deve permanecer administrável, com mediana abaixo de 3 vezes em 2018.

“O cenário-base é de manutenção de níveis alavancagem e liquidez em patamares adequados aos ratings. O esperado fortalecimento do consumo de energia em 2018 deve favorecer os fluxos de caixa operacionais, ainda que sejam pressionados pelos relevantes investimentos esperados. Riscos de refinanciamento devem manter-se baixos, beneficiados por um ambiente de captação atualmente bastante favorável”, escreveu Mauro Storino, diretor sênior da Fitch Rating no relatório.

No final de 2017, segundo outra notícia do portal CanalEnergia, a agência de classificação de risco Moody’s também manteve a perspectiva estável para as empresas de transmissão e distribuição de energia elétrica no Brasil. De acordo com o comunicado da agência, a perspectiva estável justifica-se pela “expectativa de que a recuperação do consumo de energia, aliada à compensação tarifária adequada, resultará em tendências de estabilização das gerações de fluxo de caixa para as concessionárias”.

As perspectivas para o setor elétrico em 2018, segundo a agência Moody’s, refletem ainda as condições fundamentais dos negócios para os segmentos de distribuição e transmissão de energia nos próximos 12 a 18 meses. “Esperamos que o consumo de energia cresça em um ritmo moderado de 2% a 3%, em linha com nossas projeções para um crescimento de 2,5% do PIB do Brasil em 2018 e 2019”, comentou Paco Debonnaire, analista da Moody’s.

O especialista acredita, ainda, que as condições hidrológicas fracas do país continuarão a pressionar negativamente a liquidez das empresas de distribuição, enquanto a expectativa é que as empresas de transmissão tenham “retornos permitidos estáveis e previsíveis” com a manutenção do atual arcabouço regulatório.

Segundo a notícia do CanalEnergia, entre os critérios considerados pela agência Moody’s está a estabilização em 12% do índice do caixa gerado nas operações (CFO) das distribuidoras sobre as receitas líquidas das companhias e a permanência em torno de 20% do índice das receitas reguladas (RAP) para necessidades de CAPEX nas transmissoras.

 

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